É preciso democratizar mais as finanças
Valor Econômico – 18/05/2012
Nos anos 1990, Robert J. Shiller previu o estouro da bolha do mercado de internet. Antes de 2007, previu a crise das hipotecas nos EUA. Hoje, preocupa-se com a perspectiva de que as falhas do sistema financeiro americano sejam atribuídas ao próprio conceito de finanças. Para se contrapor a algo que considera um exagero perigoso, escreveu “Finance and the Good Society”, no qual argumenta que as inovações do mercado financeiro, apesar de tudo, caminham na direção de uma maior democratização do acesso ao capital.
O economista, professor de finanças na Universidade de Yale, faz questão de ressaltar que seus cursos estão disponíveis gratuitamente na internet. Vê com bons olhos as reivindicações do movimento Occupy Wall Street, que denuncia a desigualdade de renda nos EUA e o excesso de influência dos bancos sobre o sistema político americano. Sua intenção, afirma, não é defender os líderes de Wall Street, “como diziam alguns e-mails muito raivosos que recebi”, mas sugerir alternativas que fortaleçam o capitalismo financeiro como instituição democrática. “Tenho muita esperança na iniciativa do crowdfunding”, diz.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Shiller concedeu ao Valor.
Valor:
O que o impulsionou a escrever um livro para o público geral sobre as finanças?
Robert Shiller: Foi um esforço de demonstrar como o capitalismo financeiro tem o poder de transformar o mundo e a vida das pessoas. Com o avanço dos instrumentos financeiros, a possibilidade de melhorar o nível de vida das populações crescia. Era e continua uma questão de ampliar o acesso ao financiamento e ao investimento para cada vez mais camadas da população. Meu objetivo é ressaltar essa necessidade de democratizar as finanças. Esta é uma história de séculos. A crise expôs as fraquezas do sistema como se organizou nos últimos tempos, mas a solução é reformá-lo e fazê-lo avançar.
Valor: Com a crise, as pessoas se sentem excluídas, não incluídas, no sistema. Um problema apontado é a concentração de poder, que abre caminho para fraudes e esquemas de pirâmide.
Shiller: Sou professor de finanças há 25 anos e tenho observado que os alunos passaram a sentir que trabalhar com finanças é moralmente errado. A hostilidade às finanças cresceu muito, mas o capitalismo financeiro é um sistema imprescindível, embora precise de regulamentos e controles. De fato, o sistema hipotecário americano tinha muitas falhas e fraudes, mas mesmo assim democratizou muito o acesso à propriedade.
Valor: Ainda assim, o que temos visto nos últimos 20 anos é um processo de concentração no mercado financeiro e na renda.
Shiller: A concentração da renda é um dos principais problemas. A bandeira do movimento Occupy Wall Street é a ideia da oposição entre os 99% e o 1%, porque a desigualdade cresceu muito nos últimos 30 anos e é um problema difícil de solucionar. Temo que ainda fique bem pior. Não tenho a solução definitiva, mas não vejo como má ideia o aumento de impostos para as classes abastadas. É preciso reverter os cortes de impostos da era Bush.
Valor: E quanto à concentração do mercado? As fusões foram intensas nas últimas décadas e produziram corporações gigantescas, cujas falhas podem levar a economia toda à lona.
Shiller: É preciso aplicar no setor financeiro as leis antitruste, que existem há mais de cem anos e das quais os bancos ficaram a salvo. O capitalismo financeiro funciona melhor com um número maior de empresas menores. É preciso desmembrar corporações, como aconteceu com a telefonia nos EUA em 1982. Por enquanto, o máximo que se propôs é que as companhias fossem desmembradas ao atingir 10% do mercado. Isso não adianta, é o tamanho dos maiores bancos hoje.
Valor: No livro, o senhor comenta que a evolução das finanças exige uma compreensão melhor de outros campos das ciências humanas.
Shiller: Esse é um dos grandes problemas dos economistas: poucos leem qualquer coisa que não sejam artigos da própria área. Os problemas que estão aparecendo são humanos, ou seja, essencialmente sociais e políticos. Eles se expressam financeiramente porque as finanças existem para expressar forças da sociedade. É preciso recorrer à sociologia e à ciência política, que explicam essas forças. Não só: também à economia comportamental e à psicologia.
Valor: O problema remete à desregulamentação e à liberalização financeira dos anos 1970?
Shiller: A regulação é fundamental. Isso já se tornou evidente. Ao fim dos anos 1980, tivemos a crise gravíssima das cooperativas “Savings & Loans”, que tinham sido desregulamentadas e provocaram uma recessão em 1990-1991, seguida de déficits orçamentários. O mesmo vale para a quebra das instituições Fannie Mae e Freddy Mac, em 2008. A questão é que a regulação tem de se manter atualizada. A evolução dos instrumentos financeiros sempre está muito à frente, e os reguladores têm de correr atrás.
Valor: Soa estranho reduzir uma crise financeira e um problema social e psicológico.
Shiller: É surpreendente, mas as finanças expressam algo da realidade social e psíquica. A causa da recessão, hoje, passa por essa expressão. Por baixo das bolhas existe um pensamento de bolha. Nos anos 1990 e 2000, as pessoas acreditaram que o mercado imobiliário deixaria todo mundo rico. Pensavam que os preços de residências nunca poderiam cair, argumentando que a terra é um bem escasso. É uma ideia absurda, mas recorrente.
Valor: O próprio estudo das finanças não consegue revelar seus limites?
Shiller: Não, se as finanças forem olhadas isoladamente. Precisamos da sociologia. No livro, faço uma lista de situações de bolha onde as finanças estão ausentes. Aconteceu na União Soviética e na China de Mao Tsé-tung. A lógica é a mesma. Entusiasmo público, concentração extrema de esforços em áreas específicas, os membros da elite política e econômica oferecendo remunerações e incentivos exorbitantes uns aos outros. A diferença é que não havia analistas apontando que o limite chegaria.
Valor: Falando em influência política, uma questão que se impõe é como essa regulação poderia ser feita se a influência do setor financeiro sobre Washington é tão poderosa.
Shiller: O problema político é central. Em Washington, a influência política se exerce por meio dos lobbies, mas, de 30 anos para cá, o poder de fazer lobby ficou muito desequilibrado. Antes, os interesses dos sindicatos e os das corporações se contrabalançavam, mas o poder sindical foi profundamente enfraquecido. Até os anos 1970, havia leis que protegiam os sindicatos, mas elas foram mudadas e quebraram a espinha do lado dos trabalhadores. A opinião pública, na era Reagan, foi muito hostil aos sindicatos. O desequilíbrio que resultou dessa era abriu as comportas para os interesses financeiros. É preciso repensar isso, e também controlar o financiamento de campanhas políticas.
Valor: Até onde as leis Dodd-Frank, que buscam regular as finanças, são eficazes?
Shiller: Chris Dodd e Barney Frank são muito inteligentes, mas tudo que eles conseguiram por em prática foi um quadro geral de propostas. Depois, convocaram mais de 50 estudos e ainda não se chegou a um resultado final. Precisamos de pessoas cada vez mais competentes e bem equipadas na regulação. Hoje, os reguladores estão sobrecarregados e só conseguem fiscalizar uma fração ínfima do mercado.
Valor: O poder político das corporações é tão grande que pode bloquear qualquer iniciativa?
Shiller: É muito grande, mas não tão acachapante como as pessoas pensam. Caso contrário, nem teríamos as leis Dodd-Frank. Há quem diga que o banco Goldman Sachs domina o mundo. Não é verdade. Eles conseguiram emplacar o secretário do Tesouro no governo Bush (Henry Paulson), que pode ter tomado atitudes para beneficiar o banco de onde vinha em algo como US$ 12 bilhões. Mas no cômputo geral do sistema, isso é ínfimo.
Valor: Com mercados globais, seria preciso introduzir uma regulação global, mas as iniciativas não parecem avançar a contento.
Shiller: É difícil avançar na regulação global dos mercados, mas houve progressos. Veja-se a coordenação dos países do G20, que se encontraram e evitaram que a economia mundial entrasse em colapso. Ainda que um sistema funcional de regulação esteja longe, o contato constante entre os principais países evita que cada um nade em direção diferente.
Valor: Tanto os Estados quanto as empresas, financeiras ou não, estavam muito alavancados antes da crise e continuam assim. É possível desalavancar sem produzir uma depressão?
Shiller: Neste momento, não se deve nem pensar em desalavancar o setor público. No meio de uma crise, seria um desastre. No setor privado, tem havido uma lenta desalavancagem. As dívidas de cartão de crédito nos EUA estão caindo. As dívidas de hipoteca, também. A desalavancagem deveria ter acontecido enquanto a economia crescia, mas isso é muito difícil, quem vai se dispor a correr menos risco e, com isso, investir menos, se não existir uma regulação eficaz?
Valor: Se os Estados europeus estão sufocados em dívidas, com bancos quebrando e a Grécia a ponto de deixar a zona do euro, de onde os governos vão tirar a musculatura financeira para promover o crescimento? Há esperança na Europa?
Shiller: Há muita esperança na Europa. Eles tiveram vários séculos de protagonismo no sistema mundial e não vão ficar tão enfraquecidos agora. Mas é preciso mudar algo, sim. A austeridade é um erro enorme, mas com grande apelo entre eleitores, com a metáfora das finanças familiares: se os tempos são duros, é preciso poupar mais… A Espanha convive com altos índices de desemprego há muito tempo, metade dos jovens no país não tem emprego e muitos querem emigrar. Isso é insustentável.
Valor: Essa descrição parece bem pouco esperançosa. Ainda mais agora que a China, a Índia e o Brasil estão desacelerando.
Shiller: Toda a conjuntura aponta para uma recessão global, o que é péssimo, mas não é o fim do mundo. Os ajustes serão necessários, mas o desastre pode ser evitado se conseguirmos escapar ao perigo dos excessos da austeridade, que transformariam a recessão em depressão. Quanto ao crescimento dos emergentes, ele foi extraordinário, nos últimos dez anos. Mas não poderia continuar nesse ritmo para sempre. Esses países vão continuar crescendo, só que a um ritmo mais baixo. O importante é que a crise não os leve a abandonar o capitalismo financeiro, de que se aproveitaram tão bem nos últimos tempos.
Valor: A crise das finanças impõe riscos para empreendimentos que estejam começando?
Shiller: A despeito de todas as falhas do mercado financeiro, o empreendedorismo está mais vibrante do que nunca. O capital de risco para incubadoras de empresa está em expansão e a grande novidade, em que ponho muita esperança, é o “crowdfunding”. Essa iniciativa vai ser explosiva. É mais um experimento muito promissor nas finanças, e no sentido cada vez mais voltado para a democratização financeira. O capital funciona muito bem quando ele dissemina recursos entre pessoas que não estão em comunicação direta.
Valor: Qual é a particularidade de um capitalismo financeiro, no interior do capitalismo?
Shiller: A evolução das finanças remete ao século XIX, quando surgiram as empresas de capital aberto, e também quando foi inventada, quase sem querer, a responsabilidade limitada. Depois vieram as opções, os derivativos, as hipotecas. Como resultado, o capitalismo financeiro é muito diferente daquele capitalismo do tempo de Adam Smith, cujo eixo eram as empresas familiares. A essência das finanças não está na especulação, mas no financiamento de atividades. É um sistema de organização. A especulação é um subproduto perigoso, mas não de todo incontrolável, como tem sido dito e temido desde o estouro da bolha hipotecária.











maio 18, 2012
|
Posted by Blog do Microcrédito
Categories:
Tags:



















