O sucesso do microcrédito depende do trabalho dos agentes de crédito

A publicação da matéria sobre o trabalho de campo dos agentes de crédito responsáveis por disseminar o microcrédito é importante por duas razões:

a) primeiro, por confirmar a dependência do trabalho dos agentes de crédito para que qualquer ação de microcrédito alcance sucesso, um dos pontos que mais enfatizo aqui no Blog do Microcrédito, desde seu surgimento;

b) segundo, que o programa Crescer segue concentrado no programa Crediamigo, como também já enfatizei em críticas que publiquei aqui mesmo no blog, demonstrando o equívoco da estratégia adotada, que deixou de considerar as instituições sem fins lucrativos e as SCMs para sua expansão.

Obviamente, não se pode deixar de considerar o avanço nas negociações entre a ABCRED e a ABSCM e o BNDES, por exemplo. O que se verifica, entretanto, é que o volume financeiro disponível para a aceleração das atividades dessas organizações segue crescendo lentamente, enquanto o governo prioriza percursos equivocados na tentativa de atração de outros bancos oficiais cujo empenho neste setor sempre foi pífio.

Mascate’ de crédito desbrava periferia no NE
Autor(es): Por Murillo Camarotto
Valor Econômico – 08/06/2012

Lucas Silva, assessor de crédito: “As pessoas pedem mais do que podem pagar.”

Sinal dos tempos, o comércio porta a porta perdeu espaço nas cidades brasileiras, até mesmo nos bairros mais periféricos, onde já foi muito popular. Na era da internet, o carteiro já não é celebrado como antes, que dirá o vendedor de panelas ou enciclopédias. Na contramão dessa tendência, começa a proliferar na região Nordeste um novo tipo de mascate, conhecido pelo burocrático nome de assessor de crédito. Apesar de atuar na ponta da operação, esse profissional está no centro do debate sobre as possibilidades do mercado brasileiro de microcrédito produtivo orientado, que começa a dar sinais de expansão.

De acordo com o Banco Central, em 2011 foram contratados R$ 3,59 bilhões em microcrédito produtivo, voltado a pequenos empreendedores, um crescimento de 45,8% em relação ao ano anterior. No mesmo intervalo, o volume de microcrédito direcionado ao consumo recuou 23,8%, a R$ 2,1 bilhões, dando o tom do cenário que deve prevalecer nos próximos anos, na esteira dos incentivos federais à modalidade produtiva. Os números referem-se apenas às operações realizadas com dinheiro oriundo da parcela de 2% dos depósitos compulsórios direcionada a este fim pela legislação.

Apesar do avanço recente, o microcrédito produtivo ainda está concentrado no Banco do Nordeste (BNB), que responde por algo em torno de 80% dos clientes atendidos no país. O saldo da carteira de microcrédito produtivo com recursos do compulsório era de R$ 1,57 bilhão em fevereiro e cerca de R$ 700 milhões estavam com o BNB. Além do compulsório de outros bancos, a instituição nordestina conta com funding do BNDES, Banco Mundial e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Lucas Barbosa da Silva é um dos 2 mil assessores de crédito que têm a missão de captar novos clientes para o BNB. Aos 21 anos, ele é responsável pela operação no bairro do Cabula, periferia de Salvador. Tocando campainha ou batendo palmas, oferece a pequenos comerciantes, camelôs e prestadores de serviço empréstimos do Crediamigo – principal programa de microcrédito produtivo no país, com 1,1 milhão de clientes e carteira de R$ 1,2 bilhão.

O Crediamigo contempla empréstimos de R$ 100 a R$ 15 mil, mas a média de contratações não costuma passar de R$ 2 mil. Nessa faixa, a operação é enquadrada no programa Crescer, lançado em setembro pelo governo federal, com o objetivo de turbinar o microcrédito produtivo. Com subsídio que vai de R$ 22 a R$ 230 por operação, a depender do valor e do prazo, caiu para 0,64% ao mês o juro cobrado na modalidade, taxa que era substancialmente maior. O Banco do Nordeste centralizou mais de 90% das transações do Crescer nos primeiros meses do programa.

Um dos culpados por essa concentração é Lucas, o assessor de crédito, que ganha R$ 700 por mês. Isso porque os custos de treinamento e de manutenção de uma equipe numerosa de assessores de crédito são um dos principais empecilhos para o avanço de outros bancos no microcrédito, um mercado com demanda reprimida de oito milhões de pessoas somente no Nordeste. O público-alvo também interessa pouco. Para os grandes bancos, a população na linha de pobreza remete a risco certo e lucro duvidoso. Assim, a maioria das instituições prefere passar adiante suas cotas represadas do compulsório ou até mesmo deixar o dinheiro parado no BC.

Especialistas em microcrédito acreditam, no entanto, que uma mudança está em curso. Ao ultrapassar a marca de 1 milhão de clientes ativos, o BNB começa a chamar a atenção para a viabilidade econômica do microcrédito produtivo. “Não tenho dúvida de que os demais bancos vão olhar de forma diferente um negócio sustentável com essa escala”, opina o chileno Jaime Pizarro Tapia, consultor de microcrédito a instituições da América Latina.

Espectador atento dos debates, o gerente de planejamento estratégico da área no Santander, Uéliton Rolim Gonçalves, diz que o banco planeja diversificar o leque de produtos voltados ao segmento. De acordo com ele, a carteira de microcrédito produtivo orientado do banco conta hoje com cerca de 120 mil clientes e saldo de R$ 193 milhões. “O mercado está mudando. É claro que os bancos comerciais não querem prejuízo, mas a gente está provando que pode ser uma operação viável.” Segundo ele, o banco estuda lançar uma conta corrente específica para o público do microcrédito.

O americano Larry Reed, diretor da Microcredit Summit Campaign, também conhecida por “Cúpula do Microcrédito”, acredita que o maior desafio para a consolidação do setor é a correta medição dos resultados na melhoria de vida das pessoas atendidas. Ele relativiza a consistência de estudos que apontam a ineficiência do microcrédito no combate à pobreza. “A maioria desses estudos foi feito em um período curto. Acredito que a mudança efetiva pode ser percebida após alguns anos”, afirmou.

É aí que entra, de novo, o assessor de crédito – desta vez como solução. De acordo com os especialistas, o trabalho desses profissionais é indispensável para a sustentabilidade do microcrédito. Lucas atua desde a captação dos clientes até o controle da inadimplência, passando pela estruturação da operação. “Os assessores são a chave do sucesso do microcrédito produtivo”, afirma o presidente do BNB, Jurandir Santiago. Em abril, o Crediamigo apresentava inadimplência de 0,97% nos empréstimos vencidos há mais de 90 dias, patamar considerado bastante razoável pela direção do banco.

Ainda assim, Reed alerta para o perigo do endividamento excessivo. “O microcrédito é como um rio. As bordas não podem ser inundadas sob nenhuma hipótese. É preciso construir canais altos para evitar que ele transborde”, recomenda. Lucas confirma que o público-alvo do microcrédito é, sim, propenso ao endividamento. “As pessoas pedem muito mais do que poderiam pagar. Dez vezes mais. Querem resolver todos os problemas de uma vez só. Cabe à gente controlar”, conta o jovem.

A parcimônia na oferta do dinheiro é a primeira de sete lições apresentadas pelo representante da Cúpula do Microcrédito em direção à sustentabilidade do segmento. A promoção da educação financeira e o incentivo à poupança também foram destacados, bem como o conhecimento profundo dos clientes. Lucas garante que as recomendações do americano são postas em prática diariamente nas ruas do Cabula. Há um ano e meio na função, o mascate do crédito se diz testemunha do resultado positivo dos financiamentos na melhoria de vida do empreendedor da periferia.

Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/6/8/mascate-de-credito-desbrava-periferia-no-ne

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