Os cinco maiores bancos detém 80% do crédito no Brasil

Cinco bancos detêm 80% do crédito

De cada R$ 100 emprestados no Brasil, R$ 80,34 foram desembolsados por apenas cinco bancos: Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander. Os números mostram o maior nível de concentração bancária dos últimos dez anos. Apesar desse fortalecimento do “grupo dos cinco”, o Banco Central considera que a concorrência continua em “nível adequado” e o “setor segue competitivo”. Nos Estados Unidos, onde se fala dos bancos grandes demais para quebrar, as cinco maiores instituições financeiras possuíam ativos totais equivalentes a 51% do PIB do país em 2007 e respondem por 56% agora. No Brasil, os ativos do “grupo dos cinco” foram de 57% para 86% do PIB no mesmo período.

De cada R$ 100 emprestados no Brasil, R$ 80,34 foram desembolsados por apenas cinco bancos: Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander. Os números, que levam em conta o estoque de crédito atual, mostram o maior nível de concentração bancária dos últimos dez anos e, provavelmente, desde sempre. Há uma década, as cinco maiores instituições não tinham nem 60% do estoque de crédito do país. De cada R$ 100 desembolsados, eram responsáveis por R$ 58,66, segundo dados do Banco Central elaborados pelo Valor.

Não é apenas nos empréstimos e financiamentos que a predominância do “grupo dos cinco” é crescente. Em ativos totais e depósitos, o fenômeno se repete. Mas é no crédito que a concentração costuma provocar mais chiadeira por parte dos tomadores.

Em recente entrevista ao Valor, o presidente de uma grande distribuidora de energia comentou que a quantidade de grandes bancos ficou tão diminuta que as empresas não podem mais se indispor com nenhum deles, principalmente em momentos de turbulência.

Sempre que um banco compra ou se funde com outro, a reclamação das empresas é a mesma. Quando se fala em limite de crédito, a regra matemática não funciona: um mais um nunca é igual a dois. A disponibilidade de crédito dada por dois bancos separados não corresponde ao mesmo volume que eles passam a oferecer quando se unem. As empresas também avaliam que o poder de barganha delas em relação ao custo do dinheiro cai.

Desde 2008, não foram poucos – nem pequenos – os casos de fusão e aquisição no setor bancário que colaboraram para a maior concentração de ativos, crédito e depósitos nas mãos dos cinco maiores bancos do país. A largada foi dada quando o Santander assumiu o Real, em 2008. Pouco depois, Itaú e Unibanco fundiram suas operações, criando o maior banco brasileiro. Em seguida, o Banco do Brasil ficou com a Nossa Caixa e, em 2009, ainda comprou metade do Banco Votorantim.

Mais recentemente, em julho, Itaú e BMG se uniram em um novo banco para ofertar crédito consignado. O empréstimo com desconto direto na folha de pagamento era uma das poucas modalidades de crédito de varejo que ainda tinha bancos médios especializados como concorrentes, mas que está cada vez mais ficando nas mãos dos grandes bancos. O Cruzeiro do Sul, por exemplo, está sob intervenção do Banco Central e pode acabar sob o controle de uma instituição do “grupo dos cinco” ou liquidado.

Não são, porém, apenas as fusões e aquisições que explicam a concentração cada vez mais intensa do crédito. Dentro desse “grupo dos cinco”, os protagonistas da aglutinação são os bancos públicos, que cresceram principalmente de forma orgânica. Se, em 2002, Banco do Brasil e Caixa eram responsáveis por R$ 25,83 de cada R$ 100 emprestados, hoje eles respondem por R$ 39,08, ou R$ 13,25 a mais, sem se considerar o BNDES. No mesmo período, as três maiores instituições privadas avançaram bem menos juntas, R$ 8,43.

Até o fim do ano, a expectativa é que o quinhão dos bancos públicos cresça ainda mais. Em um ano de baixo crescimento econômico, em que o governo deflagrou uma batalha pela redução dos spreads no Brasil, Caixa e BB seguem crescendo mais do que a média de sistema financeiro, abocanhando – mesmo que temporariamente – fatias de mercado. Ao mesmo tempo, Bradesco e Itaú Unibanco reduziram a previsão de expansão do crédito no ano.

Apesar do rápido fortalecimento do “grupo dos cinco”, o Banco Central considera que a concorrência continua em “nível adequado”. Pelas métricas da autoridade, que seguem um cálculo internacional (Índice de Herfindahl-Hirschman), o patamar de concentração ainda está na categoria moderada. “O setor segue competitivo, gerando as eficiências que asseguram o seu regular funcionamento e a adequada prestação de serviços aos usuários”, afirma a autoridade por meio de uma nota.

Mas é inegável que a autoridade tem lançado mão recentemente de algumas medidas para evitar uma concentração excessiva. O Banco Central cita entre as decisões tomadas para estimular a concorrência bancária a padronização das tarifas cobradas, a portabilidade do crédito e a proibição de assinaturas de contratos de exclusividade na prestação de serviços. Em abril, a autoridade publicou uma circular explicitando que em fusões e aquisições pode exigir que os bancos aceitem determinações no sentido de eliminar efeitos anticoncorrenciais. Na aquisição da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, o BC já chegou a atuar nesse sentido.

O “nível adequado” apontado pelo Banco Central brasileiro, entretanto, provavelmente deixaria muitos americanos de cabelo em pé. Nos Estados Unidos, onde muito se fala dos bancos grandes demais para quebrar – os chamados “too big to fail” -, as cinco maiores instituições financeiras possuíam ativos totais equivalentes a 51% do PIB daquele país em 2007, antes do estouro da crise financeira. Naquele mesmo ano, os ativos dos cinco maiores banco do Brasil representavam 57% do PIB doméstico.

Mas, embora os EUA tenham sido o epicentro da crise e visto uma série de fusões entre instituições de grande porte antes e depois da quebra do Lehman Brothers, a desalavancagem que se sucedeu fez com que os cinco maiores bancos daquele país tivessem, em março, ativos que correspondiam a 56% do PIB de 12 meses até a mesma data, indicando uma pequena elevação ante 2007. No Brasil, o aumento da concentração foi muito maior, com a fatia dos ativos do “grupo dos cinco” atingindo 86% do PIB brasileiro, uma alta de quase 30 pontos percentuais.

Autor(es): Por Carolina Mandl e Fernando Torres | De São Paulo
Valor Econômico – 02/08/2012

Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/8/2/cinco-bancos-detem-80-do-credito

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É preciso democratizar mais as finanças

Valor Econômico – 18/05/2012

Nos anos 1990, Robert J. Shiller previu o estouro da bolha do mercado de internet. Antes de 2007, previu a crise das hipotecas nos EUA. Hoje, preocupa-se com a perspectiva de que as falhas do sistema financeiro americano sejam atribuídas ao próprio conceito de finanças. Para se contrapor a algo que considera um exagero perigoso, escreveu “Finance and the Good Society”, no qual argumenta que as inovações do mercado financeiro, apesar de tudo, caminham na direção de uma maior democratização do acesso ao capital.

O economista, professor de finanças na Universidade de Yale, faz questão de ressaltar que seus cursos estão disponíveis gratuitamente na internet. Vê com bons olhos as reivindicações do movimento Occupy Wall Street, que denuncia a desigualdade de renda nos EUA e o excesso de influência dos bancos sobre o sistema político americano. Sua intenção, afirma, não é defender os líderes de Wall Street, “como diziam alguns e-mails muito raivosos que recebi”, mas sugerir alternativas que fortaleçam o capitalismo financeiro como instituição democrática. “Tenho muita esperança na iniciativa do crowdfunding”, diz.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Shiller concedeu ao Valor.

Valor:

O que o impulsionou a escrever um livro para o público geral sobre as finanças?

Robert Shiller: Foi um esforço de demonstrar como o capitalismo financeiro tem o poder de transformar o mundo e a vida das pessoas. Com o avanço dos instrumentos financeiros, a possibilidade de melhorar o nível de vida das populações crescia. Era e continua uma questão de ampliar o acesso ao financiamento e ao investimento para cada vez mais camadas da população. Meu objetivo é ressaltar essa necessidade de democratizar as finanças. Esta é uma história de séculos. A crise expôs as fraquezas do sistema como se organizou nos últimos tempos, mas a solução é reformá-lo e fazê-lo avançar.

Valor: Com a crise, as pessoas se sentem excluídas, não incluídas, no sistema. Um problema apontado é a concentração de poder, que abre caminho para fraudes e esquemas de pirâmide.

Shiller: Sou professor de finanças há 25 anos e tenho observado que os alunos passaram a sentir que trabalhar com finanças é moralmente errado. A hostilidade às finanças cresceu muito, mas o capitalismo financeiro é um sistema imprescindível, embora precise de regulamentos e controles. De fato, o sistema hipotecário americano tinha muitas falhas e fraudes, mas mesmo assim democratizou muito o acesso à propriedade.

Valor: Ainda assim, o que temos visto nos últimos 20 anos é um processo de concentração no mercado financeiro e na renda.

Shiller: A concentração da renda é um dos principais problemas. A bandeira do movimento Occupy Wall Street é a ideia da oposição entre os 99% e o 1%, porque a desigualdade cresceu muito nos últimos 30 anos e é um problema difícil de solucionar. Temo que ainda fique bem pior. Não tenho a solução definitiva, mas não vejo como má ideia o aumento de impostos para as classes abastadas. É preciso reverter os cortes de impostos da era Bush.

Valor: E quanto à concentração do mercado? As fusões foram intensas nas últimas décadas e produziram corporações gigantescas, cujas falhas podem levar a economia toda à lona.

Shiller: É preciso aplicar no setor financeiro as leis antitruste, que existem há mais de cem anos e das quais os bancos ficaram a salvo. O capitalismo financeiro funciona melhor com um número maior de empresas menores. É preciso desmembrar corporações, como aconteceu com a telefonia nos EUA em 1982. Por enquanto, o máximo que se propôs é que as companhias fossem desmembradas ao atingir 10% do mercado. Isso não adianta, é o tamanho dos maiores bancos hoje.

Valor: No livro, o senhor comenta que a evolução das finanças exige uma compreensão melhor de outros campos das ciências humanas.

Shiller: Esse é um dos grandes problemas dos economistas: poucos leem qualquer coisa que não sejam artigos da própria área. Os problemas que estão aparecendo são humanos, ou seja, essencialmente sociais e políticos. Eles se expressam financeiramente porque as finanças existem para expressar forças da sociedade. É preciso recorrer à sociologia e à ciência política, que explicam essas forças. Não só: também à economia comportamental e à psicologia.

Valor: O problema remete à desregulamentação e à liberalização financeira dos anos 1970?

Shiller: A regulação é fundamental. Isso já se tornou evidente. Ao fim dos anos 1980, tivemos a crise gravíssima das cooperativas “Savings & Loans”, que tinham sido desregulamentadas e provocaram uma recessão em 1990-1991, seguida de déficits orçamentários. O mesmo vale para a quebra das instituições Fannie Mae e Freddy Mac, em 2008. A questão é que a regulação tem de se manter atualizada. A evolução dos instrumentos financeiros sempre está muito à frente, e os reguladores têm de correr atrás.

Valor: Soa estranho reduzir uma crise financeira e um problema social e psicológico.

Shiller: É surpreendente, mas as finanças expressam algo da realidade social e psíquica. A causa da recessão, hoje, passa por essa expressão. Por baixo das bolhas existe um pensamento de bolha. Nos anos 1990 e 2000, as pessoas acreditaram que o mercado imobiliário deixaria todo mundo rico. Pensavam que os preços de residências nunca poderiam cair, argumentando que a terra é um bem escasso. É uma ideia absurda, mas recorrente.

Valor: O próprio estudo das finanças não consegue revelar seus limites?

Shiller: Não, se as finanças forem olhadas isoladamente. Precisamos da sociologia. No livro, faço uma lista de situações de bolha onde as finanças estão ausentes. Aconteceu na União Soviética e na China de Mao Tsé-tung. A lógica é a mesma. Entusiasmo público, concentração extrema de esforços em áreas específicas, os membros da elite política e econômica oferecendo remunerações e incentivos exorbitantes uns aos outros. A diferença é que não havia analistas apontando que o limite chegaria.

Valor: Falando em influência política, uma questão que se impõe é como essa regulação poderia ser feita se a influência do setor financeiro sobre Washington é tão poderosa.

Shiller: O problema político é central. Em Washington, a influência política se exerce por meio dos lobbies, mas, de 30 anos para cá, o poder de fazer lobby ficou muito desequilibrado. Antes, os interesses dos sindicatos e os das corporações se contrabalançavam, mas o poder sindical foi profundamente enfraquecido. Até os anos 1970, havia leis que protegiam os sindicatos, mas elas foram mudadas e quebraram a espinha do lado dos trabalhadores. A opinião pública, na era Reagan, foi muito hostil aos sindicatos. O desequilíbrio que resultou dessa era abriu as comportas para os interesses financeiros. É preciso repensar isso, e também controlar o financiamento de campanhas políticas.

Valor: Até onde as leis Dodd-Frank, que buscam regular as finanças, são eficazes?

Shiller: Chris Dodd e Barney Frank são muito inteligentes, mas tudo que eles conseguiram por em prática foi um quadro geral de propostas. Depois, convocaram mais de 50 estudos e ainda não se chegou a um resultado final. Precisamos de pessoas cada vez mais competentes e bem equipadas na regulação. Hoje, os reguladores estão sobrecarregados e só conseguem fiscalizar uma fração ínfima do mercado.

Valor: O poder político das corporações é tão grande que pode bloquear qualquer iniciativa?

Shiller: É muito grande, mas não tão acachapante como as pessoas pensam. Caso contrário, nem teríamos as leis Dodd-Frank. Há quem diga que o banco Goldman Sachs domina o mundo. Não é verdade. Eles conseguiram emplacar o secretário do Tesouro no governo Bush (Henry Paulson), que pode ter tomado atitudes para beneficiar o banco de onde vinha em algo como US$ 12 bilhões. Mas no cômputo geral do sistema, isso é ínfimo.

Valor: Com mercados globais, seria preciso introduzir uma regulação global, mas as iniciativas não parecem avançar a contento.

Shiller: É difícil avançar na regulação global dos mercados, mas houve progressos. Veja-se a coordenação dos países do G20, que se encontraram e evitaram que a economia mundial entrasse em colapso. Ainda que um sistema funcional de regulação esteja longe, o contato constante entre os principais países evita que cada um nade em direção diferente.

Valor: Tanto os Estados quanto as empresas, financeiras ou não, estavam muito alavancados antes da crise e continuam assim. É possível desalavancar sem produzir uma depressão?

Shiller: Neste momento, não se deve nem pensar em desalavancar o setor público. No meio de uma crise, seria um desastre. No setor privado, tem havido uma lenta desalavancagem. As dívidas de cartão de crédito nos EUA estão caindo. As dívidas de hipoteca, também. A desalavancagem deveria ter acontecido enquanto a economia crescia, mas isso é muito difícil, quem vai se dispor a correr menos risco e, com isso, investir menos, se não existir uma regulação eficaz?

Valor: Se os Estados europeus estão sufocados em dívidas, com bancos quebrando e a Grécia a ponto de deixar a zona do euro, de onde os governos vão tirar a musculatura financeira para promover o crescimento? Há esperança na Europa?

Shiller: Há muita esperança na Europa. Eles tiveram vários séculos de protagonismo no sistema mundial e não vão ficar tão enfraquecidos agora. Mas é preciso mudar algo, sim. A austeridade é um erro enorme, mas com grande apelo entre eleitores, com a metáfora das finanças familiares: se os tempos são duros, é preciso poupar mais… A Espanha convive com altos índices de desemprego há muito tempo, metade dos jovens no país não tem emprego e muitos querem emigrar. Isso é insustentável.

Valor: Essa descrição parece bem pouco esperançosa. Ainda mais agora que a China, a Índia e o Brasil estão desacelerando.

Shiller: Toda a conjuntura aponta para uma recessão global, o que é péssimo, mas não é o fim do mundo. Os ajustes serão necessários, mas o desastre pode ser evitado se conseguirmos escapar ao perigo dos excessos da austeridade, que transformariam a recessão em depressão. Quanto ao crescimento dos emergentes, ele foi extraordinário, nos últimos dez anos. Mas não poderia continuar nesse ritmo para sempre. Esses países vão continuar crescendo, só que a um ritmo mais baixo. O importante é que a crise não os leve a abandonar o capitalismo financeiro, de que se aproveitaram tão bem nos últimos tempos.

Valor: A crise das finanças impõe riscos para empreendimentos que estejam começando?

Shiller: A despeito de todas as falhas do mercado financeiro, o empreendedorismo está mais vibrante do que nunca. O capital de risco para incubadoras de empresa está em expansão e a grande novidade, em que ponho muita esperança, é o “crowdfunding”. Essa iniciativa vai ser explosiva. É mais um experimento muito promissor nas finanças, e no sentido cada vez mais voltado para a democratização financeira. O capital funciona muito bem quando ele dissemina recursos entre pessoas que não estão em comunicação direta.

Valor: Qual é a particularidade de um capitalismo financeiro, no interior do capitalismo?

Shiller: A evolução das finanças remete ao século XIX, quando surgiram as empresas de capital aberto, e também quando foi inventada, quase sem querer, a responsabilidade limitada. Depois vieram as opções, os derivativos, as hipotecas. Como resultado, o capitalismo financeiro é muito diferente daquele capitalismo do tempo de Adam Smith, cujo eixo eram as empresas familiares. A essência das finanças não está na especulação, mas no financiamento de atividades. É um sistema de organização. A especulação é um subproduto perigoso, mas não de todo incontrolável, como tem sido dito e temido desde o estouro da bolha hipotecária.

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Desconcentração bancária reduziria juros

O Globo – 04/05/2012

Ogoverno está em franca ofensiva para tentar reduzir as taxas de juros de mercado no Brasil. A presidente Dilma Rousseff aproveitou sua mensagem do Dia do Trabalho para tocar novamente nesse tema, enfatizando que não via razão para as taxas de juros serem ainda tão altas. Em favor dessa ofensiva colabora o ambiente internacional de folgada liquidez, o que tem sido motivo de crítica por parte do governo brasileiro, devido à desvalorização que vem causando às moedas de economias mais desenvolvidas, em prejuízo das emergentes, que não tiveram seu processo de crescimento interrompido.

Juros mais compatíveis com os padrões do resto do mundo é uma das aspirações do sistema produtivo e dos consumidores desde o lançamento do real, mas há que se reconhecer que persistem na economia brasileira obstáculos para o alcance de tal objetivo. O principal deles é a própria inflação. O esforço para derrubar a inflação crônica e aguda exigiu um longo período de restrição ao crédito. Em termos relativos, a economia brasileira registra um dos mais baixos volumes de crédito (cerca de 50% do Produto Interno Bruto) entre as maiores do planeta. Mas, nos últimos anos, o crédito tem se expandido a um ritmo acima de 15% – superando 20%, em alguns períodos de 12 meses. Em determinados segmentos, como o de financiamento a habitações, a velocidade de crescimento passou de 60%, dobrando sua fatia no conjunto do crédito, embora ainda não represente mais que 4% do PIB.

O crédito já não sofre a mesma competição do endividamento público, que antes absorvia a oferta dos recursos administrados pelo sistema financeiro (e era um fator de grande pressão sobre as taxas de juros). Isso permitiu que o crédito se expandisse ao elevado ritmo mencionado.

As instituições financeiras brasileiras não têm no momento dificuldades para captar recursos. Assim, o custo de captação tem diminuído – até pelos cortes na Selic (taxa básica de juros) -, e era de se esperar que esse fenômeno se refletisse nos juros dos empréstimos, o que não ocorreu, reforçando as críticas aos excessivos spreads bancários no país.

Essa inércia pode ser quebrada por iniciativas em várias frentes, entre as quais a redução do risco do crédito (pois a inadimplência é apontada como uma das principais causas dos altos spreads). A carga tributária também deve ser considerada. Mas é preciso também estimular a concorrência no seio do sistema bancário, mas não só pela ação dos bancos públicos, pois nesse caso não haverá modificação no quadro de concentração do sistema financeiro, transferindo-se apenas alguma fatia de mercado de uma instituição para outra. Na ofensiva para reduzir os spreads, o governo deve ter uma política que favoreça a desconcentração – hoje, os dez maiores grupos financeiros, de um total de 120 bancos, detêm aproximadamente 80% do mercado. Se a oferta de crédito se disseminar por um maior número de instituições, a concorrência se encarregará de derrubar as taxas dos empréstimos. Por causa da concentração bancária, a “mobilidade” dos clientes é pequena. Poucos mudam de bancos atraídos por oferta de crédito a custos mais baixos, porque as diferenças de taxas não têm sido significativas. Uma política de desconcentração bancária é um adequado dever de casa para o Planalto. Só discurso não adianta.

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